Archive for setembro, 2008

sonho bissexto

setembro 27, 2008

pro sabor dos nossos sonhos não se esgotarem
porque até a gota está se esgotando.
haja chuva, haja mar, haja rio que nos renove.
haja onda no mar pra afundar um pouco e já respirar.

haja saudade dos sonhos antigos que se realizaram.
haja saúde para matar essa saudade.
mas que haja gripe para baquear uns dias e voltar ao pique.

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Parála

setembro 21, 2008

antes que seja tarde,
antes que a saudade acabe e dê lugar à melancolia,
antes que eu esqueça cada detalhe e só lembre do que está nas fotos,
antes que o vento acabe e o rio leve as águas para outros mares…
segue um texto sobre o Pará, “o lugar onde as coisas simplesmente acontecem” (Leandro Carmelini).
pras pessoas que foram junto e pras pessoas que tentam entender o sorriso que brota do meu olhar quando falo de lá, segue uma tentativa de tradução não-literal e um tanto literária.
segue…

Uma das coisas mais bacanas em Belém/PA foram as pessoas. Ainda que a maioria das fotos sejam de paisagens, foram as pessoas que mais marcaram a minha viagem. Foram as pessoas que desde o primeiro instante, antes mesmo da viagem começar, fizeram a diferença. Foram as pessoas que eu não conhecia, e das quais agora eu sinto saudades e procuro manter vínculos, que mudaram o rumo não-traçado dessa viagem.

Foi tudo no improviso, muito pouco pensado. Só deu tempo de bater alguns medinhos, que logo foram abocanhados pelo sonho de conhecer o norte. Pra mim Pará era isso: o norte. Quase um mundo intocável e inatingível nos meus sonhos até 1 mês antes de eu viajar. Inalcançável por tempo indeterminado. Um sonho a espera das suas asas para voar. E as asas vieram, sempre por acaso. As asas vieram de cabelos cacheados e sorriso fácil. Vieram e voltaram sempre sem querer, querendo. Até que um belo dia os cabelos cacheados mostraram rodas que iam para o norte. Rodas que girariam de graça e ainda vinham com alimento e hospedagem baratos. E o sonho, aos poucos, foi ganhando formas de uma proposta irrecusável. E tudo foi se encaixando… chegada a hora do sonho decolar, aguardo pelo atraso na escada. Me junto a pessoas que também esperavam, cada uma com um sonho nas mãos. E o sonho agora tinha fundo musical: música erudita. Era um coral cantando para relaxar.

As rodas chegaram, momento de euforia. Estranhamente, estava tranqüila. A asa de cabelos cacheados me avisa que já tenho lugar reservado. “Oh, que maravilha” – penso. E é na frente ainda! Perfeito.

As rodas começam a girar, as pessoas se movimentam junto com elas. Assim é a viagem inteira: batuque no ritmo do tempo. Que voa.

É tempo de viagem sobre rodas, é tempo de convivência forçada por muitas horas em um curto espaço de metros quadrados. Olho pro lado, nos apresentam, nos cumprimentam. Uma galera que come comida saudável. Como será que é isso? Interessante… Mas é noite, já passam da meia-noite, vamos dormir, depois a gente continua o papo. Uma boa noite com as pernas esticadas e um friozinho agradável. Amanheço e vejo o sol nascendo. É sertão e o sol tá ali, brotando. É mágico e está apenas começando. Malabarismos para tirar uma boa foto. Malabarismos de um lado e de outro. Fotos bacanas, não importa muito quem tirou. Tecem-se elogios para todos os lados. O olhar ficar êxtaseado. O ônibus pára e segue parando. Perdem-se as contas e a noção de onde e quando estamos. Melhor assim, o tempo é relativo – alguém já me disse isso. Descubro que a distância também. Um dia inteiro dentro de curtos metros quadrados. E a convivência ganha voz, ganha assunto, ganha trilha sonora. E novos mundos começam a ser descobertos. É trilha sonora de filme que eu nunca havia reparado e agora me falam como um mundo dentro do mundo. É ritmo e melodia feitos para serem escutados e não apenas agregados a poesia. É tatuagem no braço, é frase marcante, é amizade que se inicia. É brincadeira até com os motoristas. É tentativa, é sucesso, de uma viagem tranqüila, mesmo depois de um saculejo. É conversa sobre signos no meio da tarde, é xixa brotando pra noite. É dia virando, é noite chegando, é luar do sertão. Não vejo a lua da minha janela, apenas sua claridade em meio ao chão. A noite é sombria no sertão, mas bonita como a flor do cacto, ainda que crua e pesada como o aço.

No balanço do busão, o pandeiro não decepciona, e a música não pára. Até que o ônibus pára e ela vai continuar do lado de fora. Música transborda a toda hora. Gestos também. Cores gritam e invadem meus sentidos. Chegamos a Belém.

A UFPA é linda logo de cara. Vemos um rio e corremos feito crianças quando vêem um parquinho naquele restaurante chato que os pais escolheram para almoçar. Depois descobrimos que a universidade se parece um pouco com o restaurante na hora do almoço: as vezes a comida demora, as vezes ela falta e atrasa. Mas pra que se estressar? Vamos dançar! É insano esse espírito que faz festa até mesmo pra reclamar.

A beira do rio se revela um bom lugar. O rio Guamá se mostra um bom companheiro para alguns, amigo-confidente para outros, parceiro para quem sempre está por ali. É o seu ar que dá energia pra dançar carimbó até o pé inchar. É das suas águas que o sol brota. E haja sensibilidade para olhar, haja memória para guardar, haja coração para não explodir. O sol vem e traz com ele uma taça. Sua taça é sua astúcia – parafraseando Domingos Pelligrini. E essa taça vem para brindar amizade que se faz na beira do Rio Guamá. É amizade que mostra caminho, que ri e acha graça do riso. Pro dia nascer feliz… e a gente dormir. Se a vida estava vazia de sentido, os sentidos se transbordaram ali. Transbordaram a borda do rio, pularam do precipício e foram parar alí, pra dançar calypso.

E é tanto lugar bonito, que eu fico perdida desde o início. E eu quero mais é me perder. Dou a mão, me deixo ser guiada. Já confio em quem conheci há 56 horas de viagem atrás. Me perco, mergulho em um mundo que não conheço. Um mundo de sabores-instintivos, de frutas amazônicas, de peixe frito. É tudo regado com água do rio. Um rio largo, parece mar. Mergulho nele e sua correnteza tenta me puxar. Me seguro, tento não me entregar. Mas ele se entrega a mim, se esvazia e deixa eu entrar. Mais um pulo, com mais calma, mais devagar. Sinto o sabor da água: não tem gosto, mas não é salgada. É morna. Talvez a única coisa morna em Belém do Pará. Talvez o rio e sua água sejam justamente o equilíbrio vital entre o calor da terra e o calor do ar. A chuva também deve ajudar. Ela não refresca, mas é provável que ajude a não piorar.

A chuva cai todo dia, não precisa fugir que ela está só de passagem, amanhã volta de novo, pode ficar tranqüila. As vezes vem no auge do sol, as vezes vem no fim da tarde. Mas sempre vem, como quem sabe onde pisa. Pisa nessa terra, molha a placa vermelhinha. Toma açaí que a chuva passa ou chopp de bacuri que alivia. É fim de tarde, menina, anda logo, vai pro Palafitas. Sente a estranha ventania. A chuva hoje veio acompanhada. A chuva hoje veio mais forte e trouxe mais alegria. Mas ela logo passa. Então, vamos correndo pro Copo Sujo, que Chico nos aguarda. Senta um pouco, sente a brisa, sinta.

É noite de lua cheia, é raio, é cometa. Aqui o céu é egocêntrico – um músico rima. E é tudo lindo. Não tem como parar para sentir tristeza. É só olhar pro lado que você encontra um sorriso. É só olhar de volta e voltar sorrindo. É só olhar em volta, acordar e ver que por um instante tudo foi realidade. É só olhar a rota e antes mesmo de ela terminar, já querê-la fazer de volta. É só olhar que volta. Prepara a rede, compra açaí que a saudade é grande e já já a gente volta.


Preguiça

setembro 18, 2008

bate
joga
encosta
prensa
imobiliza
preguiça.

pára
amarra
trava
senta
deita
dorme
fecha
enrola
imobiliza
preguiça.

última hora
depois
quase
talvez
quem sabe
amanhã
preguiça.

orkut
msn
last fm
blog
facebook
fotolog
youtube
preguiça.

anula
cancela
adia
mata
falta
pula
chuta
preguiça.

Despedir dá febre…

setembro 12, 2008

É , seria mais fácil dizer “até breve” e fingir que vamos vê-la semana que vem.
Seria mais fácil lembrar que vamos vê-la daqui há alguns meses.
Seria mais fácil se conscientizar que vai ser ótimo pra ela.
Mas é impossível suprir o vazio que ela nos deixa com essa despedida.

Seria mais fácil segurar a lágrima e sorrir.
Seria mais fácil dar um abraço apertado e partir.
Seria mais fácil também mandar um torpedo como se fosse mais um.
Mas é impossível não lembrar que ela não estará aqui para dividir tudo o que vai nos acontecer nos próximos meses.

Seria mais fácil… tudo seria mais fácil se algum engenheiro se empenhasse mais e transformasse o sonho do teletransporte em realidade.
Mas enquanto isso não ocorre o peito aperta, a garganta dói e a gente disfarça.
Saudade dá febre, já dizia o poeta. E quem dera que fosse só febre.

Posso?

setembro 10, 2008

Posso não falar nada?
Posso só ficar olhando o circo cheio de palhaços se achando?
Se comida é o que pesa, posso não pagar pela salada?
Se bebida é o que embebeda, posso não pagar a laranjada?

Às vezes eu paro e penso, e paro e olho, e sento.
Meu Deus, esse mundo é bizarro!
Ainda mais se aquecendo!
Pessoas andando de blusa comprida, como se suor servisse de bebida!

Posso só enlouquecer?
Com meu taco de sinuca e aqueles outros tacos que pra nada servem.
Com a bola no buraco e as outras bolas que só atrapalham.
Com a mesa torta e o horizonte como meta.

Às vezes eu queria sair sozinha.
E sozinha sentir o que tão pouco sentia.
E viver o que tão pouco vivi.
E sorrir ainda mais do que sorri.

Posso só comer?
Sem a obrigação de me sustentar.
Sem um sentimento pra satisfazer.
Sem o desejo para matar.

Às vezes eu como sem querer.
E vivo sem vontade.
Às vezes eu não sei o por quê
E sinto muita saudades.

ARMA

setembro 5, 2008

ÁGUA
SEDE QUE MATA
SEDE QUE CEDE
QUE EXCEDE
QUE ULTRAPASSA.

ÁGUA
QUE MEDE
QUE TE METEM
LATA E GARRAFA PLÁSTICA.

ÁGUA
QUE FEDE
QUE DÁ A DESCARGA
E DESCARREGA EM OUTRAS ÁGUAS.

ÁGUA
QUE FERE
QUE AR
QUE AFASTA.

ÁGUA
QUE ESQUECEM
QUE DESCUIDAM
QUE FALTA.

ÁGUA
QUE GUERREM
QUE FUTURO?
QUE TE SALVA?