friozinho

março 29, 2010

Flôr de Inverno II - foto por Calil Souza

não é novo, mas é estranho.
inesperado talvez seja a melhor palavra.
eu já havia desistido e até estava bem com isso.

não é surpreendente, por ser tranquilo.
diferente talvez seja uma boa palavra.
já vi isso acontecer um dia, mas não esperava que acontecesse de novo.

não é ruim, por ser morno.
curitiba talvez seja uma boa definição.
do jeito que acontece os 3 climas em um só dia.

não é sufocante, mas é cachecol.
friozinho talvez seja uma boa descrição.
frio com casaco e assim está bom.


sede

março 14, 2010

imagem por Stefânia Masotti

transbordo sede de você
transbordo até ceder
excede a vontade
me cedo mas arde
e sempre é cedo
sempre é pouco,
nunca cabe
exceto o certo
da flor o cheiro
que o tempo exale


noite em você

março 2, 2010

ouvi você falando essa noite.
queria que isso não fosse apenas um sonho.
não fosse só mais um sonho.

te desejei realmente do meu lado.
a virtualidade me provoca espasmos
e eu senti você aqui enquanto a gente conversava.

te levei pra cama comigo.
a gente sorria sem falar nada.
depois olhava o céu na janela.

te vi numa noite estrelada.
e era a estrela mais bela.
veio eclipse e desviou minha atenção.

eclipse machuca os olhos se não tomar cuidado.
sem querer, voltei pra ti.
e você me recebeu em seus braços.

se fez importante sem eu perceber.
era como aquele cachorro da rua que passa a aparecer nos dias tristes
[até que você um dia olha pra ele e resolve levá-lo pra casa.

te trouxe pra mim em mim.
mas ainda falta você aqui.


a lembrança que me faz sorrir

fevereiro 5, 2010

você é aquela lembrança que me faz bem.
um tubo, uma quadra, um meio-fio.
a gente.
você é uma lembrança boa entre tanta tempestade.
é você que eu carrego de tudo aquilo.
muito mais do que aquela ou qualquer isto.
é você a lembrança que me faz sorrir.

e hoje, algum tempo depois, eu te desejo:
continue sempre sorrindo.
estarei admirando, com um carinho além.
além do que tivemos, além do horizonte que nos separa…
um carinho.


Flor de Tinta Fresca

janeiro 28, 2010

eu vou mandar fazer uma flor com o nosso DNA
vai ser da cor dos sonhos – que nos levam,
com cheiro das nossas peles – que gritam
e frutos do nosso sexo – que acalma.

para a mistura:
um pedaço seu em mim
e um pedaço meu em ti
multiplicados com uma pitada da nossa saliva.

instruções:
germinar ao sol do amanhecer,
expor à lua quando nasce.

plantar em terra de mangue
com água de mar um dia, água de rio noutro
e pororoca aos finais de semana.

quando brotar a primeira flor,
deixar que se desmanche
e volte à terra como cinzas do nosso amor.

as seguintes, que se espalhe
com aquele vento florescente da primavera.

e no outro ano,
quando nosso amor já for outro,
que cada um plante uma nova flor
com DNA de bioarte
que se renova a cada oxigênio de tinta fresca.

(inspirado na obra “Edunia” de Eduardo Kac)


o que ele busca?

janeiro 20, 2010

o que ele busca?
que gera tombo,
que gera risada,
que gera quebra.

o que ele busca?
quando lê um poema,
quando fala o que sente,
quando chora na frente e na cara?

o que ele busca?
quando luta com a física
quando pensa com a matemática
quando mistura tudo isso com poesia?

o que ele busca?
quando surge perdido de noite
quando pára tudo e recita uma poesia
quando grita amor em meio profano?

o que ele busca?
que grita,
que chora,
que é.


vá a praia!

janeiro 12, 2010

vai à praia
se queima
fica toda vermelha
mas não mergulha na água
(hora poluição,
hora correnteza).

mas vá à praia
beba água no coco
sente na areia
sente a areia
pequenos farelos
que grudam
que fazem castelo.

esqueça a poluição,
deixa a maré te levar,
deixa o calor bater.
sinta a água gelada
não fique com medo,
acostuma e passa.
onda vem, distrai e salva.

venha pra praia
veja o sol nascendo
pessoas caminhando
pessoas nadando
pessoas com preguiça
sorriso-choro-silêncio-euforia.

vamos pra praia
paraíso da diversidade
e ninguém liga.


(con)sentimento

dezembro 23, 2009

Sem caça, nem caçador, amor, que vem, senta, abraça e fica. Abre o vinho – que eu não consigo, usa minha caneca – que você esqueceu a sua, e divide este roxo – em meio ao laranja e vermelho, comigo.

Vem e vai, habitante único de um lugar só nosso. Curador da minha arte, que não cabe, que eu não entendo, mas você, óh você.., parece que entende, e decifra o que eu digo com o olhar que reflete, que brilha, mas que é calmo, sendo assim, desse suave-profundo jeito, a melhor ilustração pra cada palavra que berro, que canto, que grito, que suspiro ao final do seu cabelo, cachos de onde pigam as chuvas mais gostosas de se brincar.

Tu poderias cuidar de mim, reunião de todos eles em um só ser, porque se não for contigo ou alguém parecido assim, não quero, digo não e vivo sozinha. Antes louca do que mal acompanhada, antes só do que sem você. Verbo sujeito esquecer, não esquece dos sentimentos que lhe digo, de todo o resto: deixe como combustível, preciso ficar irritada, e deixe como sinal, para além das mordidas que contestam a verossimilhança com os deuses, de que és humano, não somente sobrenatural.


diálogos poéticos – alegria

novembro 28, 2009

– oi alegria! bom te ver! você vem sempre por aqui?
– só vez em quando.
– vem mais vezes? só de te ver…
– melhor não, você pode enjoar…
– é só pôr um pouco de sal que desenjoa, vem cá!
– quem disse que eu sou doce?
– todo mundo!
– “todo mundo” quem?
– ah, todo mundo… esse povo doido que escreve poesia quase sempre diz que é.
– eles escrevem de mim até o cair das lágrimas. dos que sabem que as vezes sou amarga.


diálogos poéticos – conversa de cozinha

outubro 26, 2009

tem alguém na cozinha.
te pego na geladeira pensando na vida?

fecho a porta e não vejo ninguém.
você é pensamento
do seu jeito de ser além-vida.

“de boca cheia eu penso melhor”
e sigo sua idéia comendo um brigadeiro que roubei da festa ontem.

brigadeiro roubado tem quase gosto de pecado
logo de manhã, um pecado que me cai bem.

saboreio pensando:
pecado é bom,
mas o que quero não está alí.

fecho a geladeira,
vou pra janela ver o alheio.

uma nuvem me lembra nosso desenho
que nem é nosso, talvez nem seja arte
mas é a gente, de algum jeito.

a janela não me cabe,
escapo ledo e vou pra rua.

quem sabe pixa,
que não sabe a tinta puxa.

poxa, a vida
rabiscou você em meus versos.