Archive for agosto, 2008

Ponto,

agosto 31, 2008

Nove e trinta da noite de um dia cansativo. Excelente hora para deitar e ler um livro. Mas não, você está de pé, na calçada, esperando um ônibus em um lugar que as pessoas chamam de “ponto”. Não sei o porquê disso se chamar de “ponto”, ainda mais que a maioria das pessoas torce para que ele não passe de uma vírgula: uma breve parada a caminho de casa.
Depois de uma longa espera no “ponto” – a qual justificaria chamá-lo de “ponto-parágrafo” – você entra no ônibus. Ou melhor, tenta entrar. Se ajeita daqui, se espreme dali, “Motor, pode fechar!”. Pronto, agora você está dentro. Logo depois que o sinal abre – VIVA! – você está andando. Mas não por muito tempo, pois ainda tem outro ponto. E mais alguns outros pon tos até chegar no “seu” ponto. Que de “seu” não tem nada, aliás, o ponto não tem nada, só tem uma placa. Eis que você chega na sua casa – que muitas vezes é de todos, menos sua – e vai relaxar. Agora sim dá para deitar e ler um livro. Mas, que pena, agora sua vontade já passou do ponto. É hora de pegar o caminho do sono.

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agosto 24, 2008

E depois de inventar os gestos, de inventar o som, de inventar meios e multimeios para transmití-los o homem pára e pensa: afinal, para quê tudo isso?

A busca incessante por evolução foi tão evolutiva que perdeu o sentido. Ah é, sentido. Foi pra isso que tudo isto foi inventado. Mas sentir o quê? A tinta de um quadro? O som de uma caixa? A imagem de uma tela? A letra de uma página? Não, isso não faz sentido, não assim! Eu quero mais! Quero um sentido de verdade. Mas o que?

Penso em silêncio. Olho ao meu redor – sem a interferência de nenhum meio. Ouço os barulhos – sem ajuste de volume. Vejo os movimentos – não-editados – que acontecem aqui por perto. Começo a sentir.

“Muitas vezes, durante os meus passeios, quando sou levado a deter-me perante uma visão e um sentimento que se me afiguram excepcionais, paro, tento abrir os olhos um pouco mais e, como quem respira fundo, enchendo os pulmões até ao limite da sua capacidade, pergunto-me o que é que será possível fazer para preservar aquilo, aquele momento, aquela coincidência entre uma visão e um sentimento.”
[[Alexandre Melo em “O Viandante Esclarecido”]]

É isso! Sentimento!!! Depois de tanto evoluir o homem esqueceu de… sentir! O que os quadros querem dizer? O que o rádio grita? O que a tela passa? Prenderam suas mãos, calaram sua voz, reteram seus gestos com um racionalismo exarcerbado de estatíticas, de cálculos, de cientificismo, de ondas eletromagnéticas. Uma imagem é um vetor, calculado. Um som é uma onda, métrica. Um quadro é um tamanho, reguado. E a gente é um espaço, um zero.

Vamos criar um novo sentido! Vamos negar tudo e sentir! Sem intervenções, sem meios, pura e humanamente sentir. Olhar para o lado e conversar com quem está por perto. Criar um contato que não seja através do teclado. Ir além da tela, viver de fato. Brincar, criar, tocar, encostar, voltar ao passado. Negar todo esse excesso. E se comunicar como se nunca tivesse falado um “a”. Vamos transmitir nós mesmos o que pensamos. Deixemos a tv de lado. Transmissão ao vivo é a que te encosta, te aponta o dedo na cara e sorri com dente sujo de pipoca. Um transmite, outro recebe e depois inverte. Transmissão é troca. Comunicação vai além de receptor e emissor. Vai além… pra fazer sentir, pra fazer sentido. E nada do que é dito faz sentido se tudo continuar intacto.